quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Sociedade Egípcia: Economia e Sociedade



Já sob a égide de Cristo, os novos viajantes iniciam após a Idade Média suas grandes metas em relação à antiga terra dos faraós: coletar a maior quantidade possível de relíquias transportáveis. Percebemos muito bem a sensibilidade de Jean Vercoutter ao tratar das rupturas na mentalidade exploratória, no instante em que principia suas considerações sobre o Setecentos. Com um profundo conhecimento em documentos da época, o autor consegue separar nitidamente os viajantes que ainda mantinham um “olhar de antiquário”, dos que já começavam a desenvolver uma percepção moderna a respeito das ruínas antigas. Ou seja, a diferenciar os simples colecionadores dos pesquisadores em vias de iniciar um método mais criterioso para a arqueologia. Um desses estudiosos especialmente citado pelo autor é Vivant Denon, que com seus livros e desenhos iniciou a moda da “egitomania” na Europa no início do século XIX. Esse novo espírito científico é muito bem exemplificado na composição alegórica do gabinete de Denon, executada por Benjamin Six em 1811: o sábio escreve cercado de inúmeras estátuas, objetos antigos e livros.

            As fronteiras do Egito eram bem definidas: o mar mediterrâneo ao norte; a Núbia (Primeira Catarata) ao sul, de onde vinham às matérias primas; o deserto da Líbia a oeste e o Arábico a leste. Uma estreita faixa de terra, cercada pelo mar e o deserto, tem no Rio Nilo, como já citaram Heródoto e Hecateu de Mileto, o grande motor dessa civilização. O Nilo e seus afluentes, Nilo Branco (nasce no lago Vitória, atual Uganda) e o Nilo Azul (Planalto da Etiópia), cortavam, aliás, ainda cortam, esse estreita faixa de terra, que na Antiguidade provocavam uma série de inundações (entre julho e agosto). Com as inundações, desapareciam as demarcações de terras. Anualmente, uma equipe de aldeões e/ou funcionários marcavam novamente as bordas das terras que, a partir de então, poderiam ser utilizadas pelos camponeses.

            O início da História Política do Antigo Egito apresenta uma questão problemática sobre a unificação dos dois reinos. Entre o VII e VI milênio a.C., tribos começaram a se fixar às margens do Nilo. Com o tempo, observaram e aprenderam a controlar as cheias do rio, iniciando uma série de atividades agrícolas (principalmente o trigo) que auxiliaram na sedentarização. O que era comum nas primeiras civilizações era a fixação ao solo, próximo a grandes rios, como o Tigre e o Eufrates na Mesopotâmia, o Ganges ao norte da Índia, Huang He ou rio Amarelo na China, entre outros. O desenvolvimento entre essas tribos, mais tarde chamado de nomos (serat), sendo governadas por um nomarca, não foi contínuo ou coerente. Segundo a Arqueologia, o norte, conhecido também como Delta ou Baixo Egito era mais rico e, tecnologicamente, mais avançado que o sul, conhecido como Vale ou Alto Egito. Porém, no sul existiam dois nomos a mais que o norte. Era apenas uma questão de tempo para um reino tentar anexar o outro.

            No topo dessa estrutura política – administrativa estava o faraó. Ele era associado ao deus Hórus, enquanto que o antecessor era identificado como Osíris, pai de Hórus, independente da relação familiar entre os dois governantes. Ainda no Antigo Império, mais precisamente a partir da V Dinastia (2562 – 2423), os governantes também são apresentados como filho de Amon – Rá (deus solar)[5]. Assim sendo, foram acrescentados mais nomes a titulatura real: Hórus, Nome das Duas Senhoras, Hórus de ouro. Durante o primeiro intermediário, lutas políticas e sócias, querelas religiosas, os nomarcas adquirem uma autoridade maior e rivalizam com o poder central, ataque das tribos nômades, ajudam a desestruturar o sistema.

            A sociedade egípcia possuía uma estrutura fortemente hierarquizada. Geralmente dividida em três níveis bem definidos: faraó, familiares, sacerdotes e altos funcionários (corte); escribas e militares; agricultores, artesãos, camponeses, ou seja, a maioria da população. Os cargos da administração permaneciam dentro da própria família do governante, pelo menos no Antigo e início do Médio Império. Mas tarde essas funções tornam-se hereditárias, surgindo uma elite burocrata. Também existia a possibilidade de promoção por mérito. Porém, de uma maneira em geral, os antigos egípcios esperavam que seus filhos seguissem os passos dos pais. Do ponto de vista legal, a mulher era igual ao homem. Teoricamente seus papeis eram de mãe, esposa ou amante. Mas na prática, muitas rainhas tiveram uma atuação importante no complexo Estado faraônico. Como por exemplo, podiam assumir a regência durante a menoridade do filho ou na falta de um sucessor masculino.

            O grande motor da economia egípcia estava concentrado na agricultura. Apesar de todas as terras pertencerem ao governante, como vimos anteriormente, existia a propriedade privada. A partir da IV Dinastia (2723 – 2863) a privatização do solo foi uma realidade. Provavelmente por causa das constantes doações do Faraó para seus funcionários, como pagamento, ou aos templos. Logo após as inundações do Nilo, aldeões demarcavam novamente a terra, sendo a partir de então, cultivada pelos camponeses. As sementes eram fornecidas pelo palácio e o plantio ocorria em outubro. Segundo CARLAN (2007), o trigo e a cevada eram à base da produção agrícola, pois faziam o pão e a cerveja. O vinho, geralmente guardado em ânforas, com nome do fabricante e ano (semelhante as nossas garrafas atuais), era de uso exclusivo da elite. Além de lavrar a terra com arados puxados por bois, os camponeses construíam diques e abriam canais, controlando as cheias do Nilo. Geralmente a colheita acontecia em abril. Os grãos, uma vez separados, eram levados para os celeiros reais e templos. Esses celeiros redistribuíam e armazenavam os grãos, o chamado excedente para comercialização com outros povos.

            Quem não trabalhava na agricultura, dedicava-se a outras tarefas como a produção do mel, a tecelagem, olaria, pesca, artesanato e comércio. Também produziam, o linho e papiro.

            O subsolo do Egito era rico em materiais de construção e pedras preciosas. Dos desertos do leste e oeste vinham ametista e o quartzo, enquanto no Sinai eram extraídas as pedras preciosas. Os contatos comerciais com Biblos e a região Síria / Palestina datam do antigo Império. Importavam a madeira, escassa no Egito, utilizada para fabricação de caixões e móveis.

Referências Bibliográficas

CARLAN, Cláudio Umpierre. Vinho, sete mil anos de idade. IN: Sete Mil Anos de Vinho. Revista História Viva, Grandes Temas. Edição temática n. 17. São Paulo: Duetto Editorial, 2007.

CARDOSO, Ciro Flamarion Santana. O Egito Antigo. Coleção Tudo é História. São Paulo: Brasiliense, 1982.

VERCOUTTER, Jean. O Egito Antigo. 3ª. Ed. Tradução de Francisco G. Heidemann. São Paulo: DIFEL, 1986

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