sábado, 16 de outubro de 2010

Pensando: Sociedade e Patriarcado


Para compreendermos as proporções da mentalidade que embasou a criação da cidade de Santo Antônio do Pinhal, temos que oferecer uma análise do termo patriarcado e fundamentar isto na cultura da Serra da Mantiqueira e com isto, poderemos conhecer os “resquícios” de uma sociedade pouco estudada.

Corrêa (1994) traça um quadro da diversidade econômica e social do largo território que constituía os domínios portugueses na América, entre os séculos XVI e XIX – realidade que não poderia ser acomodada nos estreitos limites do engenho ou da fazenda. Para ela, Gilberto Freyre e Antonio Cândido recuaram para o interior da instituição dominante num certo momento do Brasil colonial e, assumindo o olhar dos senhores brancos e suas famílias, negaram a possibilidade de autonomia aos demais grupos da sociedade nascente. Segundo a autora, a família patriarcal pode ter existido e seu papel ter sido extremamente importante, “apenas não existiu sozinha, nem comandou do alto da varanda da casa grande o processo total de formação da sociedade brasileira.

[...] se as famílias coloniais eram mais ou menos extensas, [...] eis um dilema de pouca relevância nos trabalhos de Freyre e Cândido. E quer-nos parecer, ainda, que a maior ou menor concentração de indivíduos, fosse em solares, fosse em casebres, em nada ofuscava o patriarcalismo dominante, a menos que se pretenda que, pelo simples fato de não habitarem a casa-grande, as assim chamadas “famílias alternativas” viviam alheias ao poder e aos valores patriarcais, o que ninguém seria capaz de afirmar, seguramente (VAINFAS, 1989, p.110).

Como em outras partes do Brasil, alguns domicílios de Santo Antônio do Pinhal tinham agregados entre os seus membros. Este específico grupo social há muito vem sendo observado pela historiografia. Segundo CORRÊA (1994), por exemplo, escreveu que as três classes fundamentais das regiões rurais do Centro-Sul eram a família senhorial, os agregados e os escravos. Sobre os agregados este autor sublinhou que constituíam a parte dos habitantes libertos.

O interessante para ser observado é que na cidade o patriarcalismo era embasado na teoria proposta por Sérgio Buarque de Holanda (1971), sobre o “Homem Cordial”, em sua obra Raízes do Brasil. O apadrinhamento pelas personalidades da cidade, como por exemplo, Benedito Costa Manso, eram realizadas tendo em vista o desenvolvimento social, para que assim, estes pudessem propagar o crescimento nas gerações futuras.

Não existe, entre o círculo familiar e o Estado, uma gradação, mas antes uma descontinuidade e até uma oposição. A indistinção fundamental entre as duas formas é prejuízo romântico que teve os seus adeptos mais entusiastas durante o século décimo nono. De acôrdo (sic) com êsses (sic) doutrinadores, o Estado e as suas instituições descenderiam em linha reta, e por simples evolução da Família. (HOLANDA, 1971 p. 101)

Uma sociedade de senhores e escravos definiu os limites políticos do desenvolvimento econômico gerado pela monocultura do café. Apesar de sua decadência ter sido abertamente anunciada desde a proibição do tráfico internacional de escravos, essa estrutura sócio-política iria perdurar até quase o fim do século. E se no plano internacional o último quartel do século XIX assinala uma época de protecionismo e de concentração econômica na Europa e nos Estados Unidos, esta situação não poderia deixar de contribuir para que, no Brasil, se continuasse a pregar o liberalismo visando apenas a liberdade de comércio e o fim do pacto colonial. Liberalismo e escravidão podiam então, para além de qualquer contradição de ordem moral ou jurídica, ser positivamente reunidos na pragmática do Estado nacional.

O conteúdo ideológico e as práticas políticas circunscritas pelo termo liberalismo se limitavam às ações dirigidas à liberdade de produzir, de comerciar e à garantia da propriedade (mesmo sobre outros homens). A boa consciência dos promotores do nosso laissez-faire se bastava com as franquezas do mercado.(BOSI, 1999 p. 199)

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