terça-feira, 7 de setembro de 2010

Religiosidade Popular: O Sagrado e o Profano

O debate sobre a prática da religiosidade popular vem se intensificando na contemporaneidade, seja para glorificá-la, ressaltando o seu caráter libertador, seja para exorcizá-la como pouco ortodoxa, do ponto de vista teológico, ou alienada sob outros prismas. Algumas correntes apresentam este conceito de forma reificada, isto é, tratam as formas populares de religiosidade como se fossem independentes das relações sociais nas quais se inserem. É o caso de artigos e de obras de alguns folcloristas que, preocupados com a preservação descritiva de nossas tradições culturais, revelam-se, na maior parte das vezes, desenraizados historicamente. Entendemos que algumas categorias básicas como o sagrado e o profano, o oficial e o popular, só poderão ser compreendidas dentro de um contexto de relações da religião com a sociedade.

O homem toma conhecimento do sagrado porque este se manifesta, se mostra como algo absolutamente diferente do profano [...] o homem ocidental moderno experimenta um certo mal estar diante de inúmeras formas de manifestações do sagrado: é difícil para ele aceitar que, para certos seres humanos, o sagrado possa manifestar-se em pedras, ou em árvores por exemplo. (ELIADE, 2001 pp 17-18)

Estas reflexões sobre as relações dos homens com o divino desdobraram-se necessariamente sobre questões ligadas à conceituação e à interpretação da cultura popular, na medida em que a experiência do sagrado é apropriada de maneiras diversas pelos grupos ou por indivíduos, caracterizando uma pluralidade de usos e de entendimentos.

Ao adorarem Santo Antônio, os moradores que fundaram a cidade de Santo Antônio do Pinhal, transformaram a adoração em uma rotina cotidiana de reza e preparação para o trabalho.

A partir da segunda metade do século XIX, um novo modelo eclesial católico começou a ser implantado no Brasil: o ultramontanismo. De raízes conservadoras, essa autocompreensão nasceu sob o impacto das revoluções liberais européias que agitaram o próprio trono pontifício. Buscando uma consolidação doutrinária teológica, estruturou-se em torno de alguns anátemas: a rejeição à ciência, à filosofia e às artes modernas, a condenação do capitalismo e da ordem burguesa, a aversão aos princípios liberais e democráticos, e sobretudo ao fantasma destruidor do socialismo.

Conscientes de que essa ordenação doutrinária constituía-se na força mantenedora da unidade da Igreja, os pontífices romanos, desde Gregório XVI até Pio XII, não mediram esforços para a sua consolidação. Com uma rigidez hierárquica, reproduzida também pelas mais distantes células paroquiais, o ordenamento ultramontano aspirava a uma univocidade entre a Europa, Ásia, África e América (WERNET, 1987 p. 30)

Desse modo, respeito e louvação; defesa intransigente, com penalidade às infrações; e familiaridade, intimidade e amálgama de situações caracterizam três níveis de comportamento e da produção simbólica em nossa cultura popular, no campo de fronteiras movediças do sagrado e do profano.

Os santos, portanto, têm tratamento diferenciado, com indicação de sinais de respeito e temor, por um lado, e, por outro, com uma familiaridade típica das relações humanas, que pode incluir censuras e castigos. Nos estudos referente a devoção a Santo Antônio, o santo casamenteiro em que analisa o culto nas mais diversas manifestações folclóricas – nas quadras populares, nas lendas, nas tradições e costumes, nas cantorias e desafios, nos folguedos populares – registra o constante respeito ao santa e as louvações, que lhe são feitas. É importante ressaltar que a devoção não são as mesmas, recebendo transformações da mentalidade regionalizada, por exemplo em Santo Antônio de Pádua, a devoção não é a mesma que a de Santo Antônio do Pinhal.

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